Tarô

Tiragem em cruz: o método 5 cartas do Tarô de Marselha

Este guia faz parte da série Significado das cartas de tarô: 78 cartas, história e leitura (parte 7 de 7).

A tiragem em cruz é um dos métodos clássicos do Tarô de Marselha: cinco cartas dispostas em cruz, cada uma num lugar que molda como ela é lida. Uma gramática comum coloca a situação no centro, o que ajuda e o que freia nos braços horizontais, o conselho em cima e a síntese embaixo. A cruz é então lida como um todo, nunca carta por carta. As posições voltadas para a frente descrevem uma tendência que depende de você, não um futuro fixo: um espelho que você levanta diante de si, não um veredicto que te entregam.

Por Jade Nohemia 1 min de leitura

Você já sabe tirar uma carta de manhã e carregá-la com você como uma pergunta para mastigar. Sabe alinhar três cartas para iluminar um tema (situação, obstáculo, caminho). A tiragem em cruz é o degrau seguinte dessa escada. Você passa de uma única carta para três, depois para cinco, e cada passo não só acrescenta cartas: acrescenta relações entre elas. É aí que a leitura fica de fato interessante.

A cruz é um dos métodos mais ensinados com o Tarô de Marselha, e um dos mais antigos que se aprende na tradição. Sua força repousa numa coisa simples: a forma. Quatro cartas em volta de uma quinta, e você ganha um pequeno espaço onde uma situação pode ser vista de vários ângulos ao mesmo tempo. É essa geometria que eu quero te passar aqui, sem mistério e sem receita mágica.

O princípio: cinco cartas, uma forma que fala

A tiragem em cruz é feita de cinco cartas. Você coloca uma no centro, depois uma à esquerda, uma à direita, uma acima e uma abaixo. A figura que você obtém é uma cruz, daí o nome. Essa disposição não é decorativa: cada lugar molda como você lê a carta que pousa ali.

É o ponto que tantos iniciantes deixam passar. A mesma carta não diz a mesma coisa conforme onde cai. O Mago posto no centro fala do impulso que anima a sua situação; o mesmo Mago posto no braço do “que te freia” fala, em vez disso, de dispersão, de começos demais e nada terminado. A posição é um filtro. Aprender a cruz é aprender a passar o sentido de uma carta pelo papel do seu lugar.

Na prática, eis como dispor a sua cruz. Segure a sua pergunta em mente ao embaralhar, de preferência uma aberta (“como eu atravesso essa mudança?” em vez de “vai dar certo?”). Corte, depois tire cinco cartas. Ponha a primeira no centro, a segunda à esquerda, a terceira à direita, a quarta em cima, a quinta embaixo. Então vire-as, nessa ordem, deixando cada uma te falar uma de cada vez antes de você amarrar tudo.

O que significa cada posição da cruz?

Há várias grades, e nenhuma delas é “a verdadeira”. Vou começar pela que fala com mais clareza para um iniciante, a que traça uma linha limpa entre o que te apoia e o que te puxa para baixo.

  • No centro, a situação. É o coração da sua pergunta, o panorama do terreno. Essa carta descreve onde você realmente está, o clima de fundo. Todo o resto da cruz se organiza em volta dela.
  • À esquerda, o que ajuda. Um recurso, um apoio, uma força já presente que talvez você ainda não esteja usando. Muitas vezes essa carta nomeia algo que você tem e esquece de olhar.
  • À direita, o que freia. Um obstáculo, uma tensão, um hábito que te mantém parado. Não é necessariamente um inimigo de fora: muitas vezes é um medo seu, uma velha cautela virada muro.
  • Em cima, o conselho. O ângulo de trabalho, a postura certa, a direção para a qual se virar. Essa carta não comanda nada: ela oferece um jeito de se aproximar do centro.
  • Embaixo, a síntese. O que emerge quando você amarra tudo. Um tom geral, um desfecho provável da inclinação atual, uma palavra de fecho que não é um fim.

Uma variação muito comum substitui essa divisão por uma leitura no tempo: à esquerda o passado (o que levou até aqui), no centro o presente, à direita o que está tomando forma, em cima uma influência elevada (o possível, a aspiração), embaixo uma raiz (as profundezas, o que já está presente), e o último lugar como síntese. Jodorowsky e Marianne Costa, em O Caminho do Tarot, insistem nessa ideia de que a posição de uma carta é uma língua por direito próprio, e que se aprende uma grade antes de adaptá-la. Escolha uma, mantenha-a por várias semanas, e deixe que vire segunda natureza. Trocar de grade a cada tiragem é nunca aprender coisa alguma.

Ler a cruz como um todo

Eis o salto que separa uma leitura viva de uma mecânica: a cruz não se lê carta por carta, ela se lê como um todo. As cinco cartas formam uma frase, não cinco palavras postas lado a lado.

Comece pondo o centro. Fique com a situação que ele descreve, sem pressa. Depois olhe os dois braços horizontais juntos: o apoio à esquerda e o freio à direita formam uma tensão, um equilíbrio. O que acontece entre essas duas forças? Qual delas pesa mais, aqui e agora? Essa tensão horizontal muitas vezes é o verdadeiro assunto da sua pergunta.

Só então você lê o eixo vertical. O conselho em cima e a síntese embaixo estão em diálogo: o de cima oferece um gesto, o de baixo mostra para onde esse gesto te leva. Com esses dois eixos em mente, cruze-os. O conselho responde ao que te freia? O recurso da esquerda consegue alimentar a síntese? Uma carta suave no centro com uma síntese áspera conta uma história diferente de uma cruz que brilha de ponta a ponta.

Vamos a um exemplo concreto. No centro, A Lua (uma situação em que nem tudo está claro, em que você avança na neblina). À esquerda, o que ajuda: O Sol (uma lucidez, uma alegria simples, gente de confiança em volta). À direita, o que freia: O Mago (uma dispersão, caminhos demais abertos ao mesmo tempo). Em cima, o conselho: A Roda da Fortuna (aceitar que as coisas giram, não querer congelar tudo). Embaixo, a síntese: Os Enamorados (uma escolha a fazer, um sim a dizer a uma única direção). Lida de uma vez, essa cruz não diz “eis o seu futuro”. Ela diz: você atravessa uma faixa de bruma, tem mais clareza disponível do que imagina (à esquerda), o que te freia é se espalhar fino demais (à direita), o caminho é afrouxar o controle (em cima), e tudo isso te leva a uma escolha a assumir (embaixo). É uma frase. Você a reconhece ou não, e é esse reconhecimento que faz uma leitura soar verdadeira. Você encontra o detalhe dessas figuras nas nossas fichas d’O Mago, d’A Lua, d’O Sol, d’Os Enamorados e d’A Roda da Fortuna.

A tiragem em cruz prevê o futuro?

Isso precisa ficar claro, porque é exatamente aqui que a cruz pode se voltar contra você. As posições voltadas para a frente (a carta do “que está por vir”, “o desfecho”, “a síntese”) não descrevem um evento fixado de antemão. Descrevem uma tendência: a inclinação das coisas se nada mudar.

E algo sempre muda, e esse algo é você. A carta de conselho existe justamente para isso. Ela fica na cruz como uma mão estendida: é aqui que você pode empurrar para mudar a inclinação. Se a síntese de baixo é desconfortável, não é uma sentença, é um aviso: a direção atual leva ali, e você tem o conselho bem na sua frente para mudar de rumo. Ler o tarô como profecia é assinar a entrega da própria vida. Lê-lo como espelho é retomar as rédeas.

Então guarde esta disciplina simples. Diante da cruz, nunca pergunte “o que vai acontecer comigo?”. Pergunte “o que essas cinco imagens me mostram sobre o que estou vivendo, e o que eu decido fazer com isso?”. A nuance não é um detalhe de vocabulário: ela muda a prática inteira. A mesma lógica vale para tiragens mais temáticas, como a tiragem do amor, em que você tanto quer que as cartas prometam algo. Elas não prometem. Elas iluminam o caminho, e isso já é muita coisa.

Quando você estiver à vontade com a cruz, pode recuar para o panorama no nosso guia para entender o tarô, ou seguir sua curiosidade mais fundo por todo o nosso universo do tarô. Mas a coisa mais útil, agora, é tirar a sua primeira cruz hoje à noite, escrever duas linhas sobre o que ela te mostrou, e recomeçar amanhã. É a prática, não a perfeição, que te faz avançar.

Perguntas frequentes

Quantas cartas são necessárias para uma tiragem em cruz?
Cinco cartas, na sua forma mais difundida. Você coloca uma no centro, uma à esquerda, uma à direita, uma em cima e uma embaixo, o que desenha a cruz que dá nome ao método. É o passo natural depois da carta do dia e da tiragem de três cartas: você passa do momento a um tema, depois a uma situação que dá para olhar de vários ângulos ao mesmo tempo. Algumas escolas acrescentam uma sexta carta de síntese no centro, posta por cima, mas a cruz de cinco cartas já basta para aprender. A ideia não é tirar muito, é tirar pouco e ler bem. Uma cruz bem lida vai te ensinar mais do que uma tiragem enorme que você não consegue amarrar. Comece com cinco, mantenha a mesma grade por várias semanas, e deixe a regularidade ensinar.
O que significa cada posição da tiragem em cruz?
Uma gramática comum dá cinco papéis. A carta do centro descreve a situação, o coração da sua pergunta, onde você realmente está. A carta da esquerda mostra o que te ajuda: um apoio, um recurso, uma força já presente. A carta da direita mostra o que te freia: um obstáculo, uma tensão, um hábito que te mantém parado. A carta de cima traz o conselho, o ângulo de trabalho, a postura certa a tomar. A carta de baixo oferece a síntese, o que emerge quando você amarra tudo. Essa divisão não é gravada em pedra: outras escolas leem os quatro braços como uma sequência no tempo (passado, presente, o que está por vir, o desfecho), com a quinta carta como síntese central. Escolha uma grade, mantenha-a, e é a grade que vai dar coerência à sua leitura.
A tiragem em cruz prevê o futuro?
Não, e essa é a chave para usá-la bem. As posições voltadas para a frente, a carta que olha o “que está por vir” ou “o desfecho”, não descrevem um evento fixo: descrevem uma tendência, a inclinação atual das coisas se nada se mover. E algo sempre se move, e esse algo é você. O conselho na cruz existe justamente para isso: te mostra onde colocar a mão para mudar a inclinação. Ler o tarô como previsão é se entregar; lê-lo como espelho é retomar as rédeas. Uma cruz bem lida não te diz o que vai acontecer com você, ela te mostra a sua situação presente com clareza suficiente para você decidir o que fazer com ela. A decisão fica sempre nas suas mãos, nunca na carta.

Fontes

  • Alejandro Jodorowsky & Marianne Costa, O Caminho do Tarot (São Paulo, Chave, 2016)