Tarô

Tiragem do amor no tarô: ler o vínculo, não o futuro

Uma tiragem do amor no tarô não prevê por quem você vai se apaixonar: ela dá forma a um vínculo como ele está agora. A leitura de três cartas mais reveladora coloca uma carta para você, uma para a outra pessoa e uma para o que se move entre vocês, e o sentido vem de como as três conversam entre si, não de nenhuma carta isolada. Solteiro, você olha como se relaciona com a proximidade; em um relacionamento, você trabalha um nó específico. De toda forma, é um espelho para entender o que você está vivendo, nunca um veredito sobre a pessoa que você ama.

Por Jade Nohemia 1 min de leitura

O que uma tiragem do amor realmente mostra a você?

Isto precisa ser dito de saída, porque todo o resto depende disso: uma tiragem do amor no tarô não vai lhe dizer por quem você vai se apaixonar, nem quando, nem se “vai dar certo”. Nenhuma carta guarda um nome, um rosto, uma data. O que uma leitura põe em forma é um estado presente: onde você está no vínculo hoje, o que você traz para ele, o que espera, o que teme. O futuro não está ali, porque ele nunca foi escrito em lugar nenhum.

Isto não é uma ressalva educada pendurada na frente. É a própria prática. O tarô é um jogo de cartas nascido na Itália do século XV; as pessoas só começaram a usá-lo para a reflexão pessoal na Paris do século XVIII. Sua história é bem documentada; seu poder de prever, não. Lido com honestidade, o baralho faz uma coisa, e a faz bem: transforma um sentimento embolado numa imagem. E uma imagem é algo com que você pode sentar, questionar, algo que empurra você a nomear o que ficou borrado. É um espelho que você ergue diante de si, nunca um veredito entregue a você.

A diferença mora na pergunta que você faz. “Ele vai voltar?” coloca a resposta fora de você, num futuro que você não consegue ler, e deixa você esperando. “O que eu realmente sinto nesta ausência, e qual parte dela é minha para carregar?” recoloca você no comando. As cartas não mudam; o que você leva embora muda por completo. Uma boa pergunta sobre o amor é sobre como você se relaciona com a proximidade, não sobre o que outra pessoa vai fazer em seguida.

A tiragem de 3 cartas: você, o outro, o vínculo

A tiragem de três cartas é o coração das leituras de amor, e não precisa ser mais sofisticada do que isso. Três cartas bastam, porque o amor quase sempre se resume a três coisas: tem você, tem a outra pessoa, e tem aquela terceira coisa que não é nenhum dos dois, o próprio vínculo.

Eis o arranjo que, na minha experiência, mais diz. Embaralhe o baralho com a sua pergunta em mente, corte, tire três cartas e disponha-as da esquerda para a direita:

  • Carta 1, você. O que você está trazendo para o vínculo agora: a sua abertura, o seu cansaço, o seu medo, o seu impulso. Não quem você é “no fundo”, apenas onde você está neste momento.
  • Carta 2, o outro. A postura dele como você a lê. Esta parte importa: a carta não revela a verdade interior da outra pessoa (o baralho não alcança isso), ela mostra o lugar que ela ocupa no que você está sentindo.
  • Carta 3, o vínculo. O que se move entre vocês dois: a textura da troca, o que a alimenta ou o que a desgasta.

A versão clássica “passado, presente, tendência” também funciona, e eu gosto dela mais do que de “passado, presente, futuro”: tendência nomeia uma direção para se inclinar, uma corrente que pode correr, não um fato fixado na pedra. Você consegue acompanhar como uma história se desenrola sem pedir ao baralho que tranque o final.

Ler as cartas juntas, não uma a uma

É aqui que mora todo o ofício da tiragem, e é a parte que nenhuma lista de significados vai lhe entregar. Uma tiragem do amor não se lê recitando o que cada carta significa por conta própria. A verdade dela vem da conversa entre as posições. Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa, em O Caminho do Tarot (2016), voltam sempre a isto: uma carta só ganha sentido pela sua relação com as outras, do jeito que uma palavra só significa algo por inteiro dentro da sua frase.

Algumas maneiras concretas de deixar as cartas conversarem:

  • Contraste. Uma carta quente na posição “você” diante de uma carta fechada na posição “outro” aponta para desequilíbrio: você está estendendo algo e isso não está sendo correspondido. A informação não está em nenhuma das cartas; está no vão entre elas.
  • Eco. Duas cartas da mesma família, duas figuras voltadas uma para a outra, duas energias suaves lado a lado: o vínculo está respirando, ou então está se fundindo tão apertado que não consegue. A tiragem deixa o veredito com você, porque você é o único que conhece o contexto.
  • A carta do vínculo como desempate. Quando “você” e “o outro” parecem puxar em sentidos opostos, a terceira carta dá o tom real. Uma troca tensa entre duas pessoas abertas não significa o mesmo que uma calma de superfície assentada sobre um vínculo desgastado.

Você vai notar que não estou lhe entregando o sentido desta ou daquela carta. É de propósito. O sentido de uma carta específica, digamos Os Enamorados, você pode aprender uma entrada de cada vez. Mas saber que Os Enamorados falam de escolha e de apego não vai ensinar você a ler uma tiragem: o que você de fato aprende é como ouvir as três posições conversarem. A carta é o vocabulário; a tiragem é a gramática.

Solteiro ou em um relacionamento: dar forma à pergunta

A estrutura de três cartas continua a mesma, mas a pergunta que cavalga sobre ela muda com a sua situação, e essa mudança faz toda a diferença.

Solteiro, o impulso é perguntar “vou conhecer alguém?” A tiragem não tem nada a dizer a isso. Vire a pergunta de volta para si mesmo, onde o baralho de fato consegue lançar alguma luz. Um arranjo que funciona: “o que eu realmente procuro” (por baixo do que digo que procuro), “o que está me segurando agora”, “o que eu consigo abrir”. A terceira carta não anuncia um encontro; mostra uma postura interior que vale a pena cuidar. A leitura vira um trabalho sobre como você se relaciona com a proximidade, que, por acaso, é a base mais segura para um encontro.

Em um relacionamento, mire um nó específico em vez de um nebuloso “o nosso futuro”. O baralho não tem paciência com perguntas vagas e adora as bem fincadas. Um arranjo de três cartas que merece o seu lugar: “o que eu carrego do meu lado”, “o que ele carrega do dele”, “o que o vínculo está pedindo”. Essa última posição é a mais valiosa das três: ela tira a sua atenção de quem tem razão e a leva para o que nutriria a coisa que vocês dois estão construindo. Sobre algo bem concreto (uma conversa que você vive desviando, uma decisão que vocês dividem), uma única carta muitas vezes basta para abrir um ângulo que você não tinha considerado.

Para as perguntas de sim ou não que ficam rodando na sua cabeça (“devo contar a ele?”, “estou pedindo demais?”), uma única carta tirada para uma leitura rápida tem o seu lugar, contanto que você lembre o que ela é: um empurrãozinho para a reflexão, não um oráculo. É esse o ponto inteiro da página tarô sim ou não, que explica por que uma carta não foi feita para decidir por você.

Por que a tiragem nunca é um veredito sobre o outro?

Há uma linha que não se cruza, e ela guarda a verdade da sua leitura tanto quanto guarda a pessoa que você ama. Uma tiragem do amor não põe a outra pessoa em julgamento. Quando uma carta dura cai na posição “outro”, você não recebeu prova de quem ela é; recebeu um reflexo do lugar que ela ocupa no que você está sentindo hoje. O baralho não tem entrada para a vida interior de alguém que não é quem está tirando. Pressioná-lo para dizer “ele está mentindo para você” ou “ela não te ama mais” é pedir a ele um veredito que ele não pode dar, e isso rouba de você a única coisa que ele pode oferecer: uma noção mais clara do que você está vivendo.

É também por isso que raramente leio “sobre” alguém sem o consentimento da pessoa, e por que desconfio de tiragens que prometem destrancar os sentimentos ocultos de outra pessoa. Elas alimentam a preocupação em vez de aliviá-la. Uma leitura honesta sempre traz você de volta à sua pergunta, à sua parte, ao que você consegue compreender e mudar. Se você está tentando entender como dois temperamentos se encontram, esse é um território diferente, mais estrutural, e você pode aprofundá-lo no lado da compatibilidade: não para colar um rótulo no outro, mas para captar melhor o que está em jogo quando duas maneiras de amar se encontram.

Lida desse jeito, a tiragem do amor faz o seu trabalho quieto e valioso: põe em palavras o que estava embolado, devolve a decisão a você, e o deixa, toda vez, mais lúcido do que estava antes de embaralhar. Um espelho para se ver com mais honestidade, nunca um veredito sobre a pessoa que você ama.

Se você quiser experimentar uma tiragem sem um baralho nas mãos, apenas colocando a sua pergunta e deixando as três posições se assentarem para você, é exatamente isso que o aplicativo faz: uma leitura interativa e guiada, guardada só para você. E se você está só começando, comece pelo guia que percorre o tarô inteiro, suas 78 cartas e o jeito como ele se lê como um espelho.

Perguntas frequentes

Como fazer uma tiragem do amor de 3 cartas?
Embaralhe o baralho com a sua pergunta em mente, corte e tire três cartas, dispondo-as da esquerda para a direita. O arranjo mais revelador no amor dá a cada posição uma função: a primeira carta é você (o que você está trazendo para o vínculo agora); a segunda é a outra pessoa (a postura dela como você a lê, não a verdade absoluta dela); a terceira é o vínculo em si (o que se move entre vocês dois). A questão não é somar três sentidos separados. Você observa como as cartas se respondem. Uma carta suave ao lado de uma carta fechada aponta para desequilíbrio; duas cartas da mesma família apontam para harmonia, ou para uma proximidade quase fusional. Você também pode trocar o arranjo por passado, presente, tendência para acompanhar como uma situação está mudando. Anote duas linhas quando terminar: essa nota, relida depois, é o que ensina você a ler.
O tarô pode prever um encontro?
Não, e isso é uma boa notícia para o que a ferramenta de fato pode fazer. O tarô é um jogo de cartas nascido na Itália do século XV; seu uso para a reflexão pessoal só data da Paris do século XVIII. Nada nessa história faz dele uma janela para o futuro, e nenhuma carta guarda um rosto ou uma data. O que uma leitura põe em foco é como você se relaciona com a proximidade agora: o que você espera, o que evita, o que está pronto para deixar entrar. Perguntar vou conhecer alguém? coloca a resposta fora de você, num futuro que ninguém lê. Perguntar o que, em mim, está abrindo ou fechando a porta agora? recoloca você no comando. A leitura vira um espelho útil, não uma promessa para se agarrar.
Qual tiragem para uma pergunta de casal?
Para um casal, mire um nó específico em vez de uma pergunta vaga sobre para onde a relação vai. Um arranjo de três cartas que funciona bem: o que eu carrego do meu lado, o que ele carrega do dele, o que o vínculo está pedindo. A terceira posição é a que vale a pena: ela tira a sua atenção de quem tem razão e a leva para o que nutriria a coisa que vocês dois estão construindo. Você também pode tirar uma única carta sobre uma pergunta concreta (uma conversa que você adia, uma decisão que vocês dividem) para abrir um ângulo, não para resolvê-la por você. Fuja de tiragens que pedem ao baralho para julgar a outra pessoa: uma carta nunca diz quem é o seu par, ela mostra o estado de um vínculo que vocês dois vivem. A leitura prepara a conversa; não substitui ela.

Fontes

  • Alejandro Jodorowsky & Marianne Costa, O Caminho do Tarot (São Paulo, Chave, 2016)